JAGUARETÊS

por Vinícius Brum

 

Merece destaque nas mitologias ameríndias a figura do jaguar (felino de grande porte encontrado do México até a Argentina, também nominado como jaguaretê, onça ou tigre). E várias são as simbologias que esse animal representa. Para os maias, por exemplo, o jaguar é uma divindade que expressa as supremas forças internas da terra. É igualmente o senhor das montanhas, do eco e dos tambores de chamada. Dão-lhe o nome de coração da montanha. Nos mitos indígenas brasileiros referentes à origem do fogo, o jaguar surge como o herói civilizador que dá o fogo aos homens (como o Prometeu da mitologia grega). Ele é o guardião do fogo. Nessa concepção, ele menos uma divindade do que um antepassado.

A palavra jaguaretê é de origem tupi e se constitui da junção dos vocábulos ya’gwara (jaguar) e e’te (verdadeiro). É a nossa onça-pintada (e por associação também pode designar o puma ou leão-baio).

Seguindo ainda pelas veredas da sabedoria singular dos povos, que constrói maravilhas, encontramos alguns provérbios, expressões populares, que aludem a estes gatos grandes. Na cultura chinesa, a figura do tigre aparece com frequência, simbolizando pessoas de grande valor. O salto do tigre, comparável ao voo do dragão, demonstra a manifestação de um talento ímpar, tão distinto e admirável que: numa montanha não cabem dois tigres. Como bem mostrou o cinema norte-americano em seus grandes filmes sobre cowboys: a mesma cidade não comporta dois xerifes. Aqui por nossas plagas existem adaptações da mesma ideia: dois tigres não cabem no mesmo mato; dois tigres não dividem o mesmo capão.

Há uma passagem do romance O evangelho segundo Jesus Cristo, do escritor português José Saramago, que nos conta sobre um embate dialético entre o ancião Simeão e o jovem José em meio a uma parada noturna das caravanas dos que estão retornando aos seus lugares de origem para cumprir o recenseamento ordenado pelos romanos. A esposa de José, Maria, está prestes a dar à luz um menino do qual muito haverá de se falar. O ancião pergunta ao iminente pai o que aconteceria se a mulher não tivesse o filho antes de acabar o prazo dado para o recenseamento. O carpinteiro, quase sem tirar os olhos das chamas da fogueira, disse que, se chegado o último dia do censo e seu filho ainda não houvesse nascido, era por que Deus não queria que os romanos soubessem dele e nem o colocassem em suas listas. O velho Simeão sentiu-se desrespeitado pela resposta direta e eloquente do jovem José. Como ousava ele dirigir-se de forma tão loquaz a um ancião, e ainda afirmar que de alguma forma conhecia os desígnios do Senhor. Depois do mal-estar que se instalou, cada um foi juntar-se ao seu grupo e a noite foi se esvaindo com a fogueira que se apagava. Retomada a andança pela manhã, os dois se distanciaram do grupo avançando pela estrada poeirenta e José desculpou-se pelo pretenso atrevimento da noite anterior, mais por formalidade do que pelo reconhecimento de uma falta. Simeão aceitou as desculpas, ainda que contrariado e a caravana seguiu. Aos dois tigres estava interditada a mesma fogueira, a mesma estrada, e em seguida se separaram, posto que o ponto final de suas viagens não coincidia. Seguiram cada um para a sua montanha ou capão de mato.

E lá se vão os dois, jaguaretês! Eu ouço pela memória. Lembro de um amigo que a tempos não vejo que, certa feita antes de uma longa viagem, indagado se continuava ouvindo muitas canções como era seu hábito, respondeu um lacônico, sim. Voltaram perguntas: quais, que autores, que cantores, coisas novas, no rádio, no velho toca-discos – e a resposta ele deu com o indicador tocando a têmpora: só as que estão aqui! O som é baixo, quase distante, quase sumindo por vezes, ondas de rádio longínqua que se perdem na noite estrelada de campo e sonora de grilos.

Estou na beira do fogo, mas, solito, não dou conversa nem para mim mesmo. Nem os estalos das brasas conseguem desviar minha atenção. E lá se vão os dois... segue o silêncio antigo seu cantarolar. Aos poucos se aproxima. Cada vez mais nítido. Me dá vontade de cantar junto. Recuo. Melhor prestar atenção. Melhor ouvir. Amanhã de “manhazito” eu vou varar o passo. Segue o silêncio, nestas planuras do Rio Grande aonde existe... quando é tempo de tosquia já clareia o dia com outro sabor. Urge prestar atenção. Vou ouvindo.

 Reconheço as canções como velhas parceiras de vida. O ambiente sonoro é o mesmo. É a mesma geografia de almas, os mesmos mapas, os mesmos timbres. Violões e cordeonas. Contudo, ainda que familiares, me soam diferentes. Num primeiro momento não consigo perceber o porquê. Melhor seguir ouvindo. Parece que a voz é igual, mas não é a mesma. E volta: lá se vão os dois, jaguaretês. Agora já posso perceber que são dois. Como eu remoía linhas atrás, me pergunto: será que uma montanha pode ter dois corações?  São duas vozes pela mesma boca, irmãs de alma. Gêmeas porque vem da terra. Mas a voz que canta, apesar de conhecê-la quase desde sempre, jamais eu tinha ouvido com os versos destas canções que também conheço de tempos longes.

Ah! Eu vinha ouvindo a memória, mas lá dentro estes tigres moravam, como no provérbio, cada um no seu capão. Agora inventaram uma estrada e caminham lado a lado, ou seria de lados alados. E contradizem o ditado: cabem, sim, no mesmo mato, habitam a mesma montanha. E o fazem, primeiro porque são dois grandes, adiante, por que se respeitam e sobretudo porque se admiram de porteiras abertas e ranchos destramelados.

Jaguaretês! Luiz Carlos Borges canta Telmo de Lima Freitas. Melhor prestar atenção! Melhor ouvir!

E lá se vão os dois...

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